Por Isabel Baggio, presidente da ABCRED (Associação Brasileira de Entidades Operadoras de Microcrédito e Microfinanças)
O Brasil está começando a pagar a conta da legalização das apostas online. Ela aparece no orçamento das famílias, no avanço do superendividamento, na ilusão do ganho fácil e na crescente substituição do planejamento financeiro pela esperança de um prêmio improvável.
Segundo o Banco Central, os brasileiros destinam entre R$ 20 bilhões e R$ 30 bilhões por mês às bets. É um volume impressionante de recursos que deixa de circular na economia real, de fortalecer pequenos negócios e de contribuir para melhorar a qualidade de vida das famílias.
Não sou contra o entretenimento nem contra a liberdade de escolha. Sou contra um modelo de negócio que prospera quando milhões de pessoas perdem dinheiro e que cresce justamente entre aqueles que menos podem perder. Quando isso acontece, deixa de ser apenas uma decisão individual e passa a ser um problema de interesse público.
As plataformas vendem a ideia de que qualquer pessoa pode mudar de vida com um clique. Mas a matemática nunca esteve ao lado do apostador. Se estivesse, esse mercado simplesmente não movimentaria bilhões de reais todos os meses.
O que mais preocupa é observar quem está financiando esse sistema.
Estudos analisados pelo Tribunal de Contas da União mostram que a maior parte dos apostadores pertence às classes C, D e E. Em um dos levantamentos considerados pelo TCU, 79% dos apostadores estão nessas faixas de renda, e quase metade relatou já ter sofrido prejuízos financeiros em razão das apostas. Esses dados ajudam a explicar por que o avanço das bets deixou de ser apenas uma questão de comportamento individual e passou a representar um desafio econômico e social.
É justamente essa realidade que torna o problema tão grave. Recursos que deveriam estar sendo utilizados para alimentação, educação, moradia ou para abrir um pequeno negócio acabam alimentando um mercado altamente lucrativo cuja sustentabilidade depende da perda da maior parte dos jogadores.
Quem trabalha há décadas com microfinanças aprende uma lição simples: pobreza não se combate com promessas de enriquecimento rápido. Combate-se com oportunidades reais para produzir renda, com crédito responsável e com educação financeira.
Foi exatamente essa lógica que inspirou o Programa Nacional de Microcrédito Produtivo Orientado (PNMPO), executado por instituições de microfinanças e OSCIPs em todo o país.
Nesse modelo, o crédito não é tratado como um produto de prateleira. Antes da concessão do empréstimo, existe uma metodologia que avalia a realidade da família, sua capacidade de pagamento e o potencial do pequeno negócio. O objetivo não é emprestar o máximo possível. É emprestar aquilo que o empreendedor consegue pagar sem comprometer a estabilidade financeira da família.
Essa diferença é fundamental.
Enquanto as bets lucram quando milhões de pessoas perdem dinheiro, o microcrédito orientado só cumpre sua missão quando o empreendedor cresce, gera renda e melhora de vida. Um modelo extrai recursos das famílias. O outro ajuda essas famílias a construir patrimônio, fortalecer seus negócios e conquistar autonomia financeira.
Mas nenhuma política pública será suficiente se continuarmos negligenciando um tema essencial: a educação financeira.
Ela deveria fazer parte do currículo escolar desde os primeiros anos. Não para formar investidores, mas para formar cidadãos capazes de compreender o valor do dinheiro, o funcionamento do crédito, os riscos do endividamento e a diferença entre construir patrimônio e apostar na sorte.
Uma criança que aprende desde cedo que prosperidade nasce do trabalho, do planejamento e da disciplina dificilmente acreditará que seu futuro depende de uma plataforma de apostas.
O Brasil precisa decidir que modelo deseja incentivar.
Um país que estimula a cultura da aposta ou um país que investe em educação financeira, empreendedorismo e geração de oportunidades?
Essa é a aposta que o país não pode errar.
O artigo foi publicado em primeira mão no portal do Jornal do Comércio (RS).