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Superendividamento avança e especialistas defendem ”crédito de qualidade”

9 de junho de 2026
Superendividamento Avança

O crescimento do superendividamento das famílias brasileiras e a explosão do crédito de consumo foram amplamente debatidos, recentemente, no 2° Encontro Nacional Sebrae e Associação Brasileira de Entidades Operadoras de Microcrédito e Microfinanças (Abcred), em São Paulo.

Especialistas alertaram para o crescimento de modalidades de crédito consideradas mais caras e defenderam o fortalecimento do microcrédito produtivo como alternativa para geração de renda e inclusão financeira. Evento reuniu representantes de instituições de microfinanças, especialistas e lideranças do setor para discutir os desafios do crédito no país.

Dados da Abcred mostram que as instituições associadas movimentaram mais de R$ 1,9 bilhão em operações de microcrédito em 2025, com mais de 188 mil contratos realizados em todo o país. Os resultados também evidenciam a importância do crédito assistido, cuja metodologia de acompanhamento contribui para reduzir riscos e ampliar a capacidade de pagamento dos clientes.

O economista Lauro Gonzalez, professor da FGV, apresentou dados sobre o avanço do superendividamento e os impactos do atual modelo de crédito no Brasil. Segundo ele, o país passou por uma forte expansão do crédito voltado ao consumo, especialmente após 2020, com crescimento concentrado em modalidades mais caras e digitais.

“O Brasil ampliou o acesso ao crédito, mas isso não significa necessariamente melhora na qualidade do crédito ofertado. Hoje temos uma expansão importante das modalidades de consumo, muitas vezes caras, que acabam agravando o comprometimento da renda das famílias”, afirmou Gonzalez durante a palestra.

O economista destacou ainda que medidas emergenciais de renegociação ajudam momentaneamente, mas não resolvem as causas estruturais do problema. “Programas de renegociação aliviam a pressão no curto prazo, mas o desconforto financeiro volta a crescer se não houver mudança estrutural na forma como o crédito é ofertado. Precisamos ampliar o acesso ao crédito de qualidade, especialmente o microcrédito produtivo orientado”, afirmou.

Em artigo recente, o consultor da Abcred, João Krein, avalia que o cenário atual é resultado de fatores que vão além da economia tradicional, envolvendo informalidade, precarização do trabalho, pressão por consumo e expansão do crédito fácil aliado às apostas digitais.

Segundo Krein, o problema não pode ser analisado apenas pelos indicadores econômicos tradicionais. “O crescimento do PIB, a queda do desemprego ou mesmo o aumento da renda média já não conseguem explicar sozinhos o ambiente social do país. O superendividamento hoje também está relacionado à insegurança financeira, à desesperança e à fragilidade das relações econômicas”, afirma no artigo.

Para a presidente da Abcred, Isabel Baggio, o debate sobre crédito no Brasil precisa avançar além da ampliação da oferta.“O Brasil não sofre apenas com falta de crédito. Sofre também com excesso de crédito ruim, caro e pouco conectado à geração de renda. O microcrédito produtivo orientado nasce justamente como alternativa a esse modelo”, afirma.

Segundo ela, o diferencial do microcrédito está no foco produtivo e no acompanhamento técnico, especialmente junto a pequenos empreendedores e trabalhadores informais. “Quando o crédito vem acompanhado de orientação e tem foco produtivo, ele deixa de ser apenas uma dívida e passa a ser instrumento de desenvolvimento, inclusão produtiva e fortalecimento das economias locais”, diz.